Conexões Criativas em Mariana: histórias, territórios e juventudes que constroem cultura viva

No Distrito Criativo Passagem, em Mariana, o Projeto Conexões Criativas se desenvolveu a partir da escuta do território e da parceria com o Clube Osquindô, articulando cultura urbana, oralidade, memória e juventude em processos artísticos conectados às narrativas locais.

Distrito Criativo Passagem: território de memória, criação e cultura em movimento

Em Mariana, o Projeto Conexões Criativas encontrou no Distrito Criativo Passagem um território onde cultura, memória e ação comunitária já se organizam de forma contínua. Reconhecido oficialmente como Distrito Criativo, o território reúne patrimônio histórico ligado à mineração, experiências de imigração, religiosidade popular, práticas artísticas contemporâneas e uma forte tradição de narrativas orais que atravessam gerações.

Mais do que um espaço físico, o Distrito Criativo Passagem configura-se como um campo cultural ativo, no qual projetos comunitários, ações educativas, economia criativa e manifestações artísticas constroem, no cotidiano, formas de pertencimento e de produção simbólica. Foi a partir desse contexto que o Conexões Criativas se integrou ao território, reconhecendo a Passagem como produtora de memória, linguagem e conhecimento.

O projeto conta com patrocínio da CSN, apoio da Rouanet e realização da Planeta Cultura e Sustentabilidade, do Ministério da Cultura e do Governo Federal – Do Lado do Povo Brasileiro. A parceria acontece com o programa de educação e patrimônio “Ouro Preto – O meu lugar”, da Casa do Professor, Instituto Território Criativo, Clube Osquindô, Observatório Jovem e Rede Loucos por Leitura

 

Sabadinho na Passagem | Foto: Luciano Almeida


Passagem de Mariana: território criativo, memória e invenção cultural

Em Mariana, o Projeto Conexões Criativas encontrou no Distrito Criativo Passagem um território especialmente fértil para o desenvolvimento de ações culturais enraizadas na memória, na criação coletiva e na vida comunitária. Oficialmente reconhecido como Distrito Criativo, esse território articula patrimônio histórico ligado à mineração, práticas artísticas contemporâneas, iniciativas comunitárias e economia criativa, configurando um ambiente onde tradição e invenção cultural convivem de forma dinâmica e cotidiana.

A escolha do Distrito Criativo Passagem como eixo central da atuação do projeto não foi aleatória. Trata-se de um território cuja identidade foi construída a partir de processos históricos profundos — como a mineração, a imigração e a religiosidade popular — mas, sobretudo, a partir da oralidade. Histórias, lendas e causos atravessam gerações, permanecendo vivos no imaginário coletivo e sustentando um patrimônio imaterial intimamente ligado ao cotidiano da comunidade. Essas narrativas não apenas preservam a memória do lugar, mas seguem produzindo sentidos, pertencimento e formas de interpretar o mundo.

Foi nesse contexto que o Conexões Criativas se inseriu, reconhecendo o Distrito Criativo Passagem não como cenário, mas como território produtor de conhecimento, linguagem e criação artística. Ainda que o foco da atuação tenha sido esse distrito, o projeto ampliou sua circulação para outros equipamentos socioeducativos de Mariana — como o Centro de Referência à Infância e Adolescência (CRIA), a APAE e o Lar Santa Maria — garantindo que os conteúdos levantados e as experiências artísticas alcançassem públicos diversos, de diferentes faixas etárias e contextos sociais.

A atuação no Distrito Criativo Passagem foi construída em parceria direta com o Clube Osquindô, organização cultural que desempenha papel central na articulação das ações do território. O Osquindô não atua apenas como apoiador institucional, mas como produtor permanente de cultura, responsável por projetos continuados que mobilizam juventudes, fortalecem a oralidade, estimulam a leitura, ocupam o espaço público e valorizam as expressões culturais locais.

Entre esses projetos, destaca-se o Hip Hop na Passagem, desenvolvido de forma contínua pelo Clube Osquindô em diálogo com escolas e espaços comunitários do Distrito Criativo Passagem. A iniciativa utiliza a cultura hip hop — rap, DJ, slam, poesia, dança e grafite — como linguagem de formação, expressão e pertencimento, reconhecendo as vivências juvenis como parte do patrimônio cultural contemporâneo do território. Ao levar a cultura urbana para dentro da escola e do bairro, o projeto cria espaços de escuta, criação e protagonismo juvenil, articulando educação, identidade e memória.

O Conexões Criativas se articulou a esse processo não como ação isolada, mas como momento de culminância e ampliação de um percurso formativo já em andamento. As apresentações e atividades do projeto dialogaram diretamente com os conteúdos, práticas e produções desenvolvidas ao longo do Hip Hop na Passagem, ampliando a circulação dessas experiências, conectando-as a outras linguagens artísticas e fortalecendo o protagonismo dos jovens envolvidos.

Outro eixo fundamental dessa parceria foi o Sabadinho na Passagem, encontro cultural produzido pelo Clube Osquindô que transforma o espaço público em lugar de convivência, celebração e economia criativa. Música, intervenções artísticas, brincantes, blocos, feiras e apresentações diversas fazem do Sabadinho um espaço de encontro intergeracional, onde tradição e contemporaneidade se cruzam de forma orgânica. A presença do Conexões Criativas nesse contexto reforçou a cultura como prática cotidiana e comunitária, integrada à vida do Distrito Criativo Passagem e às dinâmicas locais de criação, troca e pertencimento.

Nesse sentido, a atuação do Conexões Criativas em Mariana não apenas dialogou com os projetos do Clube Osquindô, mas se integrou a eles, fortalecendo processos já existentes e reconhecendo o Distrito Criativo Passagem como um território onde memória, juventude, cultura urbana e patrimônio imaterial seguem sendo produzidos coletivamente.

 

Bloco do Boqueirão | Foto: Luciano Almeida


Os causos do Distrito Criativo Passagem: oralidade, memória e patrimônio vivo

Um dos aspectos centrais da atuação do Conexões Criativas em Mariana foi o diálogo direto com o trabalho sistemático de registro dos causos, lendas e histórias do Distrito Criativo Passagem, desenvolvido ao longo dos anos no âmbito das ações culturais do Clube Osquindô. Esse trabalho não se limita à coleta de narrativas isoladas, mas constitui um processo contínuo de salvaguarda do patrimônio imaterial, baseado na escuta da comunidade, na valorização da oralidade e na preservação de memórias transmitidas de geração em geração.

Esse acervo simbólico reúne histórias profundamente enraizadas no imaginário local, revelando um território marcado pela mineração, pela presença estrangeira — especialmente inglesa —, pela religiosidade popular e por acontecimentos traumáticos e fundadores. Narrativas como a da Maria Sabão, figura recorrente nos relatos de assombração do distrito; os causos sobre o Capitão Jack e os trabalhadores ingleses da Mina da Passagem; as histórias de devoção e aparições de Santa Bárbara, padroeira dos mineradores; e as memórias da inundação de 1936, episódio trágico que marcou profundamente a vida da comunidade, articulam dimensões como trabalho, fé, medo, imigração, sofrimento e pertencimento.

Somam-se a esse conjunto os numerosos causos de assombrações, aparições e acontecimentos misteriosos, amplamente reconhecidos como parte da tradição oral marianense e associados a espaços simbólicos como a própria Mina da Passagem. Esses relatos, longe de serem tratados como folclore superficial ou curiosidade turística, funcionam como formas populares de interpretação da realidade, modos coletivos de elaborar experiências históricas, medos, perdas e transformações sociais, além de mecanismos de transmissão de valores, códigos culturais e pertencimentos.

Esse trabalho de registro ganhou materialidade em iniciativas como o projeto “Contos da Passagem”, idealizado pelo Clube Osquindô e produzido em 2011 pelo Estúdio Na Passagem, que reuniu em CD cinco histórias e lendas urbanas do Distrito Criativo Passagem. Narrativas como “O dia que Viturino enfrentou a Mulher Maravilha”, “Os burros que sabiam inglês”, “Meninos do couro”, “Romeu, Julieta e as bandas da Passagem” e “A assustadora história da Maria Sabão” receberam uma abordagem criativa e bem-humorada, demonstrando como essas histórias seguem vivas, abertas à reinvenção e à circulação contemporânea.

Foi esse conjunto amplo e complexo de narrativas, registros e práticas de salvaguarda que orientou conceitualmente a curadoria dos espetáculos do Conexões Criativas em Mariana. Ao reconhecer os causos do Distrito Criativo Passagem como patrimônio cultural legítimo e ativo, o projeto transformou a memória oral em matéria artística, utilizando a cena como espaço de atualização, compartilhamento e valorização das histórias que constituem a identidade cultural do território.

 

Espetáculo Encantados | Foto: Luciano Almeida

A criação dos espetáculos: oralidade, cultura urbana e construção cênica

A criação dos espetáculos do Conexões Criativas em Mariana partiu de uma curadoria orientada pela pesquisa cultural realizada no Distrito Criativo Passagem, com foco na oralidade, nas narrativas populares e nas linguagens contemporâneas produzidas no território. O objetivo foi transformar esses conteúdos em experiências cênicas que preservassem sua dimensão simbólica e afetiva, sem deslocá-los de sua origem comunitária.

Nesse contexto, o espetáculo “Encantados” foi concebido como tradução artística das lendas e causos do território, estruturando-se a partir da palavra falada, da música e da performance. A curadoria reuniu artistas com trajetórias profundamente vinculadas à mediação cultural e à contação de histórias. Juvenal Bernardes, cordelista e contador de histórias, trouxe à cena o ritmo, o humor e a força narrativa da tradição oral; Denise Arantes contribuiu com sua pesquisa na literatura e na palavra como construção de imagens e afetos; e Daniel Bicalho, músico e contador de histórias, articulou música e narrativa, criando uma ambiência sonora conectada ao imaginário do Distrito Criativo Passagem. A combinação dessas linguagens garantiu coerência entre conteúdo, forma artística e território.

Além de “Encantados”, a curadoria incorporou outras propostas que dialogam com a cultura urbana, o brincar e a ocupação do espaço público. No Sabadinho na Passagem, o Bloco do Boqueirão, com seus bonecos e cortejo acompanhado pela Charanga Os Lunáticos, ativou referências carnavalescas e a memória festiva do território. Já a intervenção de Léo Ladeira e Brincantes, em parceria com a palhaça Jojoba, integrou palhaçaria, brincadeiras tradicionais e interação direta com o público, reafirmando o caráter lúdico e relacional das ações.

As linguagens da cultura urbana também estruturaram parte importante da criação artística. As ações do Hip Hop na Passagem foram incorporadas à programação como expressões legítimas da produção cultural contemporânea do Distrito Criativo Passagem. A aula-espetáculo conduzida por Gabi Augusta e DJ Malif, na Casa Brincante, articulou dança, música e debate, enquanto a atividade Sopa de Letras, com Bruno Miné, aprofundou o trabalho com palavra, poesia e criação coletiva, conectando juventude, oralidade e território.

O espetáculo “Retalhos”, apresentado por Nana, trouxe o conto popular e a ventriloquia como linguagem central, por meio da personagem Macaca Lica, demonstrando como narrativas tradicionais podem ser compartilhadas de forma sensível e acessível. Conjuntamente, essas criações configuraram um percurso curatorial que articulou tradição oral, cultura urbana, brincadeira e performance como campos complementares de produção artística.

 

Espetáculo Retalhos – Nana e Lica na APAE de Mariana | Foto: Raed Travizane

 

Circulação territorial e diversidade de públicos

A circulação das ações do Conexões Criativas em Mariana foi pensada como estratégia de ampliação do acesso à cultura e de diálogo com diferentes contextos sociais e institucionais do município. Embora o Distrito Criativo Passagem tenha concentrado parte significativa das atividades, o projeto expandiu sua atuação para outros equipamentos públicos e sociais, construindo um percurso territorial diverso.

Os espetáculos e ações alcançaram a Escola Municipal de Passagem de Mariana, o Centro de Referência da Infância e Adolescência (CRIA), a APAE de Mariana e o Lar Santa Maria, permitindo que públicos infantis, juvenis, adultos e idosos tivessem acesso às experiências artísticas. Essa circulação reforçou o caráter inclusivo do projeto e a adaptação das propostas a diferentes realidades e públicos.

No campo da juventude, as ações vinculadas ao Hip Hop na Passagem assumiram papel central como momentos de síntese e encerramento de processos formativos continuados. O encerramento realizado na Escola Estadual Benjamin Guimarães, com Poeta Aquiles e estudantes da escola, reuniu poemas, slam, batalhas de rap e a apresentação do cypher da Passagem, evidenciando a juventude como agente criador e não apenas como público das ações culturais.

A inserção do Conexões Criativas na programação do Sabadinho na Passagem ampliou ainda mais essa circulação, integrando o projeto à dinâmica cotidiana do território e ao uso coletivo do espaço público. Ao dialogar com feiras, encontros comunitários e iniciativas de economia criativa, o projeto reforçou a cultura como prática compartilhada, capaz de gerar encontros intergeracionais e fortalecer vínculos comunitários no Distrito Criativo Passagem.

Hip-Hop na Passagem – E.E.Benjamim Guimarães | Foto: Luciano Almeida

Distrito Criativo Passagem: memória que gera futuro

A experiência do Conexões Criativas em Mariana demonstrou que projetos culturais ganham consistência quando se constroem a partir dos processos já existentes no território e em diálogo direto com seus agentes. Ao se integrar às ações desenvolvidas pelo Clube Osquindô — como o Hip Hop na Passagem, o Sabadinho na Passagem e o trabalho continuado de registro e salvaguarda dos causos do Distrito Criativo Passagem — o projeto não apenas utilizou a memória local como referência, mas contribuiu para sua atualização por meio da arte, da circulação cultural e da mediação com públicos diversos.

Ao longo de sua realização, o Conexões Criativas operou como articulador entre pesquisa patrimonial, formação cultural, juventude e espaço público, fortalecendo redes culturais já consolidadas e ampliando o alcance de iniciativas comunitárias. As ações realizadas evidenciaram o patrimônio imaterial como campo vivo de criação, capaz de gerar novos repertórios artísticos, estimular o protagonismo juvenil e consolidar práticas culturais sustentáveis no território.

Dessa forma, o Distrito Criativo Passagem reafirma-se não apenas como lugar de preservação da memória, mas como espaço de produção cultural contínua, onde narrativas do passado, expressões contemporâneas e participação comunitária se articulam na construção de identidades, pertencimentos e perspectivas de futuro.

 

Charanga Os Lunáticos e Bloco do Boqueirão | Foto: Luciano Almeida

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