Arte que nasce do território e retorna à comunidade
Em Ouro Preto, o Projeto Conexões Criativas construiu sua trajetória a partir de um princípio fundamental: o patrimônio cultural só faz sentido quando está em diálogo direto com as pessoas que vivem no território. Foi com essa perspectiva que o projeto se articulou ao Programa de Educação e Patrimônio Ouro Preto – O Meu Lugar, da Casa do Professor, integrando pesquisa cultural, material pedagógico e criação artística em uma experiência contínua de educação, memória e encontro.
Essa parceria permitiu que os espetáculos não fossem ações isoladas, mas desdobramentos sensíveis de processos educativos já em curso nas escolas e comunidades. A arte entrou como linguagem de mediação, capaz de transformar histórias, saberes e referências simbólicas em experiências compartilhadas, acessíveis e significativas.
O projeto conta com patrocínio da CSN, apoio da Rouanet e realização da Planeta Cultura e Sustentabilidade, do Ministério da Cultura e do Governo Federal – Do Lado do Povo Brasileiro. A parceria acontece com o programa de educação e patrimônio “Ouro Preto – O meu lugar”, da Casa do Professor, Instituto Território Criativo, Clube Osquindô, Observatório Jovem e Rede Loucos por Leitura.

Democratização do acesso e compromisso com a acessibilidade cultural
Desde sua concepção, o Conexões Criativas assumiu o compromisso com a democratização do acesso à cultura. Todos os espetáculos foram realizados gratuitamente, em espaços públicos e equipamentos comunitários, garantindo a participação de públicos diversos e ampliando o direito à fruição cultural.
Além disso, todas as apresentações contaram com recursos de acessibilidade, incluindo intérprete de Libras e audiodescrição, assegurando que pessoas com deficiência auditiva e visual também pudessem vivenciar plenamente as experiências artísticas. A acessibilidade não foi tratada como complemento, mas como parte estruturante do projeto, reforçando o entendimento de que cultura é um direito coletivo.

Territórios e espaços: a cidade como palco
A circulação dos espetáculos em Ouro Preto foi pensada de forma territorializada, alcançando diferentes bairros, distritos e comunidades, sempre em diálogo com seus contextos culturais e sociais.
As ações aconteceram na Escola Municipal Celina Cruz, localizada na Comunidade dos Motta, no subdistrito de Miguel Burnier, fortalecendo o vínculo entre patrimônio afro-brasileiro, memória local e educação. O projeto também esteve presente na Escola Municipal Padre Carmélio, no bairro São Cristóvão, ampliando o acesso à arte no cotidiano escolar.
A circulação incluiu ainda a APAE de Ouro Preto, garantindo que pessoas com deficiência intelectual e múltipla tivessem acesso às atividades culturais, e integrou a programação da Festa da Primavera de Santo Antônio do Leite, inserindo os espetáculos em um evento tradicional do distrito e dialogando diretamente com a vida comunitária.
Essa escolha de locais reafirma a cidade como espaço educativo e cultural, onde escolas, festas populares e instituições comunitárias se tornam palcos de criação e encontro.

Histórias e patrimônios como eixo da curadoria
A escolha das histórias e patrimônios trabalhados nos espetáculos partiu de uma pesquisa aprofundada sobre as referências imateriais e simbólicas de Ouro Preto. O projeto privilegiou narrativas que ajudam a compreender a formação social da cidade, especialmente aquelas ligadas às matrizes afro-brasileiras, às tradições populares e à oralidade.
A figura de Chico Rei (Galanga) foi um dos principais eixos simbólicos. Sua trajetória, preservada pela tradição oral, atravessa celebrações, irmandades e espaços de memória, consolidando-se como patrimônio imaterial que expressa valores de ancestralidade, resistência, liberdade e organização comunitária. Ao levar essa narrativa para o espaço cênico, o projeto reafirmou a centralidade da memória afrodescendente na história de Ouro Preto.
O conceito de Kalunga, presente nas cosmologias de origem banta, ampliou essa abordagem ao trazer reflexões sobre ancestralidade, passagem, continuidade e força vital. Kalunga atravessa a religiosidade, a música, o corpo e os rituais, configurando um eixo simbólico potente para a criação artística e para a educação patrimonial.
Outro patrimônio fundamental foi a Cavalhada de Amarantina, manifestação ritual com cerca de trezentos anos de tradição. Ao dialogar com essa celebração, o projeto reconheceu a importância das festas como espaços de transmissão de saberes, afetos e identidades, reforçando o sentimento de pertencimento comunitário.
Lendas, causos e narrativas populares também foram incorporados à curadoria, valorizando histórias que não aparecem nos registros oficiais, mas permanecem vivas na memória coletiva e possuem grande potência educativa, especialmente junto ao público infantil e juvenil.

A escolha dos artistas: trajetórias que traduzem patrimônio em linguagem viva
A curadoria artística aprofundou-se na busca por artistas cujas trajetórias dialogassem de forma orgânica com os conteúdos patrimoniais e com o público atendido. Mais do que selecionar espetáculos prontos, o projeto escolheu linguagens e percursos artísticos capazes de traduzir a memória em experiência.
O cordelista Juvenal Bernardes foi escolhido por sua atuação na transformação de patrimônios históricos, lendas e narrativas populares em literatura de cordel. Seu trabalho preserva a oralidade, valoriza a cultura popular e facilita a mediação pedagógica, aproximando o público das histórias simbólicas de Ouro Preto.
A artista Nana (Bruna Bernardes) integrou o projeto por sua pesquisa em contação de histórias, ventriloquia e teatro de bonecos. Sua linguagem lúdica e sensível cria pontes entre imaginação, afeto e patrimônio cultural, sendo especialmente potente no diálogo com crianças, famílias e públicos diversos.
A presença de Ingrid Ribeiro, arte-educadora e pesquisadora da história afro-brasileira, fortaleceu o compromisso do projeto com diversidade cultural e representatividade. Por meio do projeto Baú Recontando, sua atuação valoriza narrativas ancestrais, tradições populares e a cultura negra como fundamentos da educação patrimonial.
O músico Daniel Penido foi selecionado por sua trajetória dedicada à musicalização e à percussão, com destaque para o método Palma Pé, que utiliza o corpo como instrumento rítmico. Sua proposta dialoga diretamente com as tradições percussivas afro-mineiras, como o Congado, integrando ritmo, movimento, consciência corporal e ludicidade em experiências educativas participativas.

Os álbuns pedagógicos como base dos processos de educação patrimonial
O diálogo entre o Projeto Conexões Criativas e o Programa Ouro Preto – O Meu Lugar se fortaleceu a partir do uso dos álbuns pedagógicos desenvolvidos pelo programa como instrumentos centrais dos processos de educação patrimonial nas escolas da rede municipal. Mais do que materiais de apoio, esses álbuns funcionam como dispositivos pedagógicos ativos, capazes de despertar o interesse dos estudantes, estimular a investigação do território e promover a construção coletiva do conhecimento.
Estruturados a partir das referências culturais, históricas, imateriais, naturais e simbólicas de Ouro Preto, os álbuns são utilizados em sala de aula como ferramentas de mediação entre conteúdo curricular, vivências dos estudantes e patrimônio local. Por meio de imagens, textos acessíveis e propostas de interação, eles incentivam a observação, a escuta, a curiosidade e o reconhecimento do lugar onde se vive como espaço de aprendizagem.
Nos processos pedagógicos da educação patrimonial, esses materiais permitem que o estudante se reconheça como sujeito da história, compreendendo o patrimônio não como algo distante ou restrito aos monumentos, mas como parte de seu cotidiano, de sua memória familiar e de sua comunidade. O trabalho com os álbuns estimula a troca de saberes entre gerações, a valorização da oralidade e o fortalecimento do sentimento de pertencimento ao território.
Foi a partir desse percurso pedagógico já consolidado nas escolas que se estabeleceu a ponte com os espetáculos do Conexões Criativas. As narrativas, personagens, festas, lendas e referências simbólicas presentes nos álbuns orientaram a curadoria artística e a construção das abordagens cênicas, garantindo que as apresentações dialogassem diretamente com conteúdos que os estudantes já vinham explorando em sala de aula.
Dessa forma, os espetáculos não surgiram como ações pontuais, mas como extensões sensíveis dos processos educativos em curso. A arte entrou como linguagem complementar, capaz de ampliar, aprofundar e ressignificar os temas trabalhados, transformando conhecimento em experiência, e a educação patrimonial em vivência compartilhada.
Essa integração entre material pedagógico, prática escolar e criação artística reforça o entendimento de que a educação patrimonial é um processo contínuo, que se constrói no encontro entre escola, território e cultura, valorizando a identidade local e formando cidadãos conscientes de seu papel na preservação e na reinvenção do patrimônio.

Quando arte, educação e acesso se encontram
A experiência do Conexões Criativas em Ouro Preto demonstrou que a articulação entre arte e educação patrimonial se fortalece quando está ancorada em processos pedagógicos contínuos e em políticas de acesso efetivas. Ao integrar pesquisa territorial, materiais educativos já consolidados nas escolas, recursos de acessibilidade e apresentações gratuitas realizadas em espaços públicos e comunitários, o projeto ampliou o alcance da cultura e qualificou o encontro entre público, patrimônio e criação artística.
Mais do que apresentar espetáculos, o Conexões Criativas ativou memórias, promoveu reconhecimento do território e estimulou a participação de estudantes, educadores e comunidades em experiências culturais inclusivas. Esse conjunto de ações reforçou o entendimento do patrimônio como um campo vivo de aprendizado, convivência e construção coletiva, consolidando a cultura como direito, prática educativa e dimensão fundamental da vida cotidiana.